segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A história da Martinha

Quinta-feira fui ao cinema com um amigo assistir o tão comentado “Que horas ela volta?” e como muitos que assistiram sai extremamente mexida do cinema. Uma mistura de revolta com o mundo exterior, com meu próprio mundo, muitas dúvidas e uma necessidade que transbordava todas essas: precisava urgentemente falar com a minha avó.
Minha avó materna foi empregada doméstica por muitos anos. Ela começou a trabalhar por volta dos nove anos, arriando as panelas e os potes de alumínio de uma senhora que morava perto da sua casa. Seu pagamento era abacate batido já que aquela vizinha era a única que tinha um liquidificador, raridade para quem vivia em um cortiço.
Esse final de semana eu a encontrei, contei um pouco sobre o filme e disse que queria muito ver com ela. Perguntei se pela minha micro sinopse ela lembrava se tinha vivido algo parecido, ela disse que sim e dividiu comigo sua própria versão de “Que horas ela volta?”, um pouco mais sombria. Eis a história da Martinha.
Com doze anos minha avó se formava no primário, com honra e convite para estudar com bolsa por seu desempenho em matemática. Infelizmente, se viu forçada a abandonar tudo. Precisava ajudar na renda de casa e foi assim que passou a trabalhar na casa dessa Sra. cujo nome não sei, minha avó não se atentou a esse detalhe, que me escapou também.
A casa era uma mansão basicamente, ficava na 9 de Julho, com uma fachada enorme, escada de mármore branco e vinte e dois gatos. Na casa moravam apenas seis pessoas, além dos gatos: A Sra. Patroa , O Sr. Seu irmão, um sobrinho (se não me engano) , minha avó, a empregada da família que estava lá há muitos anos (uma Val) e uma cozinheira. E na rotina da casa a divisão era bem estabelecida, empregados eram empregados e os patrões eram patrões.
Entre as tarefas diárias que minha avó tinha que cumprir ela se lembra muito de duas: limpar a escadaria da entrada até toda a fuligem da rua sumir e o branco do mármore estar brilhando, e madrugar todos os dias para lavar os vinte e dois potinhos dos vinte e dois gatos para que eles pudessem tomar o leite matinal. Enquanto os gatos tinham mimos mil, cada uma das três empregadas tinha direito de apenas uma concha de leite por dia, afinal os animais também faziam parte da ala dos patrões.
A Sra. Patroa gostava de doces em compotas, ela e minha avó iam à feira e compravam as frutas. Junto às empregadas ela contava quantas frutas entravam em cada compota e anotava em uma lista que ficava pendurada na geladeira, toda vez que ela tocava a campainha que ficava ao alcance do seu pé embaixo do seu assento na mesa de jantar, minha avó levava a sobremesa e a lista junto, assim a Sra. Patroa atualizava quantas frutas ainda restavam em cada pote. Todas para a ala dos patrões e nenhuma para as empregadas.  
Entre todas as coisas que minha avó me contou a que mais me impressionou foi a Martinha. O nome da minha avó é Terezinha, mas para a Sra. Patroa era Martinha, nome de uma antiga empregada que havia trabalhado em sua casa. Era assim que essa patroa as enxergava, como uma classe que nem nome próprio lhes pertencia.  
Como disse, um pouco mais sombrio que o filme, porém menos distante do que nós pensamos. Para Dona Barbara lugar de empregada é atrás da porta da cozinha, mesmo sendo quase da família. Para a patroa da Martinha, também. Para a Dona Barbara existe sorvete do Fabinho e sorvete da empregada. Para a patroa da Martinha os doces eram dos patrões, assim como o leite. Para a Dona Barbara o grito chama a empregada. Para a patroa da Martinha bastava a campainha. 
Minha avó conviveu com muitas Donas Barbaras por causa da sua família, porque não tinha opção, porque só podia fazer aquilo. Teve de aguentar muitas coisas e não tinha nenhuma Jessica que pudesse ajuda-la. Percebo até hoje como minha avó é resistente a receber ajudas, como anos agachada lhe rendeu uma bela corcunda, como ela separa as suas patroas em “eram boas comigo” ou não. A história da Val está muito mais próxima de mim do que eu sentia e o que mais me assustou é que enquanto eu assistia o filme me pegava pensando em quantas vezes não fui Dona Barbara. Quantas Martinhas passaram e vivem na minha vida? É filisbrina, só a vó sabe. 

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Solidão apavora

Odeio tomar vacina. Odeio muito mesmo. Tenho medo, minhas mãos suam frio, eu fico tremendo, os barulhos dos plásticos me incomodam e aquele algodão com álcool me gela a espinha. Mais do que picada em si e todo processo torturante o que eu mais odeio, com todas as forças, é saber que durante alguns dias eu vou sentir aquela dorzinha constante no braço. Aquela dorzinha chata, quase imperceptível, mas que te deixa apreensivo o tempo inteiro, já que obviamente alguém vai apertar seu braço, bem ali no furinho da agulha. E foi assim que eu percebi minhas saudades hoje.
Sinto falta dele todos os dias, em praticamente todas as coisas. É uma saudadezinhas mansa, que quase não dói, mas quando aperta, fica aguda. Não sei da onde veio o apertão hoje, mas veio forte, exatamente na ferida. Talvez esse tempo Netflix, o feriado e a renovação do passaporte. Acordei me sentindo sozinha e ao longo das horas desse dia lento sinto que só piora. E não adianta só ele resolveria.
Nessas três semaninhas não me incomodei em ficar só, apenas estranho não ter um companheiro. Fico meio perdida quando não quero estar sozinha, porque pela primeira vez em três anos tenho que “pedir” para alguém estar comigo, convidar, ouvir não e seguir com meus planos. Essa incerteza do acompanhamento me incomoda, mas acredito ser pura falta de costume. O que me machuca de verdade é não ter ele, em qualquer momento para qualquer coisa.
Chegar a essa conclusão tão crua me faz mal. Sinto-me dependente e fraca, parece que só estarei 100% feliz quando ele voltar. Obrigo-me a não fazer contagens regressivas mas faço, todos os dias quando risco o calendário um sorriso involuntário cruza meus lábios. E até agora consegui segurar bem todo o avalanche de emoções, mas não dá mais.
Ontem o tempo veio à tona: três semanas que ele foi. Não passa! Parece que os apertões aumentam. Não estou mais “bem”, não estou me encontrando, a cada dia sinto que eu me perco mais um pouco. Está difícil manter o foco e a parte boa dessa distância toda me parece uma grande falácia. Só queria fechar os olhos e sumir um pouquinho dentro de mim mesma.
Quem sabe esse feriado não esteja ai para isso? Não posso mais me recusar a sentir a dor. Vou abraça-la, sentir, desmoronar e me montar de volta. Vou deixar a Sra. Tristeza se apossar um pouco da minha casa-coração, colocar as coisinhas no lugar e se aconchegar para que as pontas afiadas sumam aos poucos e esse pavor vire "apenas" melancolia, quem sabe assim venha a inspiração e o sofrimento vire samba.