Quinta-feira
fui ao cinema com um amigo assistir o tão comentado “Que horas ela volta?” e
como muitos que assistiram sai extremamente mexida do cinema. Uma mistura de
revolta com o mundo exterior, com meu próprio mundo, muitas dúvidas e uma
necessidade que transbordava todas essas: precisava urgentemente falar com a
minha avó.
Minha avó
materna foi empregada doméstica por muitos anos. Ela começou a trabalhar por
volta dos nove anos, arriando as panelas e os potes de alumínio de uma senhora
que morava perto da sua casa. Seu pagamento era abacate batido já que aquela
vizinha era a única que tinha um liquidificador, raridade para quem vivia em um
cortiço.
Esse final
de semana eu a encontrei, contei um pouco sobre o filme e disse que queria
muito ver com ela. Perguntei se pela minha micro sinopse ela lembrava se tinha
vivido algo parecido, ela disse que sim e dividiu comigo sua própria versão de “Que
horas ela volta?”, um pouco mais sombria. Eis a história da Martinha.
Com doze
anos minha avó se formava no primário, com honra e convite para estudar com
bolsa por seu desempenho em matemática. Infelizmente, se viu forçada a abandonar
tudo. Precisava ajudar na renda de casa e foi assim que passou a trabalhar na
casa dessa Sra. cujo nome não sei, minha avó não se atentou a esse detalhe, que
me escapou também.
A casa era
uma mansão basicamente, ficava na 9 de Julho, com uma fachada enorme, escada de
mármore branco e vinte e dois gatos. Na casa moravam apenas seis pessoas, além
dos gatos: A Sra. Patroa , O Sr. Seu irmão, um sobrinho (se não me engano) ,
minha avó, a empregada da família que estava lá há muitos anos (uma Val) e uma
cozinheira. E na rotina da casa a divisão era bem estabelecida, empregados eram
empregados e os patrões eram patrões.
Entre as tarefas diárias que minha avó tinha que cumprir ela se lembra muito de duas: limpar a escadaria da entrada até toda a fuligem da rua sumir e o branco do mármore estar brilhando, e madrugar todos os dias para lavar os vinte e dois potinhos dos vinte e dois gatos para que eles pudessem tomar o leite matinal. Enquanto os gatos tinham mimos mil, cada uma das três empregadas tinha direito de apenas uma concha de leite por dia, afinal os animais também faziam parte da ala dos patrões.
Entre as tarefas diárias que minha avó tinha que cumprir ela se lembra muito de duas: limpar a escadaria da entrada até toda a fuligem da rua sumir e o branco do mármore estar brilhando, e madrugar todos os dias para lavar os vinte e dois potinhos dos vinte e dois gatos para que eles pudessem tomar o leite matinal. Enquanto os gatos tinham mimos mil, cada uma das três empregadas tinha direito de apenas uma concha de leite por dia, afinal os animais também faziam parte da ala dos patrões.
A Sra. Patroa
gostava de doces em compotas, ela e minha avó iam à feira e compravam as
frutas. Junto às empregadas ela contava quantas frutas entravam em cada compota
e anotava em uma lista que ficava pendurada na geladeira, toda vez que ela
tocava a campainha que ficava ao alcance do seu pé embaixo do seu assento na mesa de jantar, minha
avó levava a sobremesa e a lista junto, assim a Sra. Patroa atualizava quantas
frutas ainda restavam em cada pote. Todas para a ala dos patrões e nenhuma para
as empregadas.
Entre todas as coisas que minha avó me contou a que mais me impressionou foi a Martinha. O nome da minha avó é Terezinha, mas para a Sra. Patroa era Martinha, nome de uma antiga empregada que havia trabalhado em sua casa. Era assim que essa patroa as enxergava, como uma classe que nem nome próprio lhes pertencia.
Entre todas as coisas que minha avó me contou a que mais me impressionou foi a Martinha. O nome da minha avó é Terezinha, mas para a Sra. Patroa era Martinha, nome de uma antiga empregada que havia trabalhado em sua casa. Era assim que essa patroa as enxergava, como uma classe que nem nome próprio lhes pertencia.
Como disse,
um pouco mais sombrio que o filme, porém menos distante do que nós pensamos.
Para Dona Barbara lugar de empregada é atrás da porta da cozinha, mesmo sendo
quase da família. Para a patroa da Martinha, também. Para a Dona Barbara existe
sorvete do Fabinho e sorvete da empregada. Para a patroa da Martinha os doces
eram dos patrões, assim como o leite. Para a Dona Barbara o grito chama a empregada. Para a patroa da Martinha bastava a campainha.
Minha avó
conviveu com muitas Donas Barbaras por causa da sua família, porque não tinha
opção, porque só podia fazer aquilo. Teve de aguentar muitas coisas e não tinha
nenhuma Jessica que pudesse ajuda-la. Percebo até hoje como minha avó é
resistente a receber ajudas, como anos agachada lhe rendeu uma bela corcunda,
como ela separa as suas patroas em “eram boas comigo” ou não. A história da Val
está muito mais próxima de mim do que eu sentia e o que mais me assustou é que enquanto
eu assistia o filme me pegava pensando em quantas vezes não fui Dona Barbara.
Quantas Martinhas passaram e vivem na minha vida? É filisbrina, só a vó sabe.




