quarta-feira, 26 de agosto de 2015

O alívio de pertencer

Desenho por: Giulia Fioratti Arte
https://www.facebook.com/pages/Giulia-Fioratti-Arte/383745408383298?fref=ts&ref=br_tf
No cumprimento das metas, aproveitei o domingo ensolarado para desfrutar do Jazz ao ar livre no parque Ibirapuera. Eu, um vinho verde, muitas cervejas e alguns amigos, que eram todos de universos paralelos um dos outros. A música boa, o clima agradável e os bons papos tornaram o domingo depre em um dia mais que agradável e nada mais justo, que em um dia tão maravilhoso, uma coisa tão maravilhosa acontecer.
Não sou a maior frequentadora de festivais do mundo, mas em quesitos shows (em geral) me considero bastante presente. Gosto de shows de quaisquer aspectos, desde os de graça aos que você precisa comprar aquelas fichinhas, criando a falsa impressão que sua cerveja custa apenas dois dinheiros, quando na verdade custa dez. Independe do estilo, local ou preço do show, o público feminino sempre sofre com uma coisa em comum: xixi.
Se existe banheiro limpo haverá fila, se não há fila também não há papel. Se tem banheiro químico sempre são poucos, muito sujos e o papel...piada, ne? Acho que o mundo ainda não entendeu que para nós mulheres (cis, para as trans é muito mais difícil pelo simples fatos de muitas serem expulsas ou proibidas de entrarem nos banheiros que têm direito) xixi nunca é tão simples, não apenas pelo fato da nossa higiene íntima ser mais complexa, mas também porque, assim como todas as outras coisas relacionadas ao universo feminino,  é tabu.
As moitas, as árvores, os muros, pertencem ao xixi, opa! Xixi não! Mijo! mijo masculino.  Esses espaços são claramente dos homens e se a gente tenta entrar é um deus nos acuda. É nojento ver uma menina fazer xixi na rua, uma porca, coitada, com certeza está bêbada. Já os homens...ai esses “danadinhos”! Aaah vá! Poupe-me.
Foi então que nesse domingo, no desespero do xixi presas na caótica fila dos banheiros químicos, eu e uma amiga (dona dos desenhos maravilhosos que eu compartilho com meus textos na tentativa de deixa-los mais bonitos) cansamos e decidimos ocupar nosso espaço de direito no matinho. Saímos da fila determinadas e encontramos um espaço meio escondido onde dois mocinhos já faziam seu xixis, quero dizer, mijavam, barulhentos e orgulhosos das suas cachoeiras nada discretas. Na hora de entrar congelamos, ficamos ali nos perguntando se não era muito claro, muito perto, muito vergonhoso. Ficamos ali discutindo os próximos passos da nossa pequena revolução até sermos interrompidas por um casal. A menina segurou o meu braço e disse: “Vocês também querem fazer xixi ai? Vamos juntas! Amor, guarda a porta!”.
Um calorzinho invadiu o peito: “Vamos juntas”. E fomos, mas antes de entrarmos fomos interrompidas novamente, outra mana: “Posso ir com vocês?”. Nos animamos mais: “Claro”. E o outro amor foi guardar a outra porta. Ficamos ali, as quatro agachadas fazendo xixi e rindo da nossa nova conquista. Rolou um comentário machistinha do lado, que logo foi cortado por um dos amores que vigiava a “porta”: “Deixa de ser escroto, é só xixi”.
“É só xixi”. Algo tão simples que, pra variar, tanto complicam. Fiquei aliviada, em todos os sentidos, me senti empoderada e acima de tudo, acompanhada. Parece um relato idiota, mas foi lindo. Energizou minha luta e crença que nos mulheres pertencemos a todos os espaços. 
Sei que ainda é um grande problema sanitário a história das necessidades em shows, festivais, carnavais e afins. Mas enquanto não encontram uma solução para isso, o matinho também é nosso! 

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